Uma pequena biografia

Noemi Nicoletti tinha dois anos de idade quando sua família mudou de Campinas, São Paulo, onde nasceu, para Jaboatão dos Guararapes, no estado de Pernambuco. 

Eles moravam numa rua que, segundo constava na prefeitura, já tinha sido asfaltada catorze vezes. Mesmo assim, logo depois que chovia, os irmãos mais velhos brincavam de passar com a bicicleta por cima dos pequenos açudes de lama que se formavam. 

Branquinha, de cabelo claro (apelidada de galega pelos nativos), curiosa e ativa — porém cercada. Os pais tinham tanta preocupação pela garotinha (“é tão delicadinha“, ouvia sempre do pai) e eram ao mesmo tempo tão ocupados (o pai além de trabalhar como engenheiro, pastoreava voluntariamente uma igreja), que mal tinha a oportunidade de sair de casa. 

Numa época sem internet, sem TV a cabo e sem poder sair de casa… o que fazer? 

Nunca passou pela cabeça da garotinha que fosse solitária ou que estivesse entediada. Porque só ela sabia que, enterrado no quintal atrás da casa, havia um castelo de vidro. Lá habitavam as criaturas fantásticas dos contos de fadas. Só ela sabia que secretamente era uma sereia. Quase todas as noites recebia a visita ilustre do próprio Peter Pan. Acontecia de quando amigas de carne e osso pedirem para conhecer o rapaz tímido, em vez dele, receber a fadinha Sininho. Ela tilintava e sussurrava, ao longe, de detrás das copas das árvores e das luzes dos postes.

— Sério que não conseguem vê-la? — Noemi perguntava, apontando pela janela do quarto para um ponto específico. — Que coisa estranha. Eles devem ter dado só a mim a habilidade de enxergá-los, então.

E deixava o “eles“ pairar no ar, sem nunca explicar quem eram eles. 

Hoje em dia, Peter Pan até tenta visitá-la, mas as janelas permanecem fechadas. 

Hoje Noemi é adulta, mora na Alemanha, é formada em jornalismo e teologia, casada com o homem de sua vida, mãe do bebê mais lindo do mundo (na opinião dela), e parte de uma comunidade que é uma verdadeira família. Ela adora as aventuras reais que tem com pessoas de carne-e-osso que tanto ama. 

Seus livros e contos são uma mistura de ambas as vidas que experimentou. A real — sólida, agridoce, por vezes cruel, tantas vezes fantástica —; a fantasiosa, acalentadora, tutora fiel e ilimitada em suas possibilidades.


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